Livros para ler antes da próxima ditadura

Livros para ler antes da próxima ditadura

A gente só percebe que está numa ditadura quando já está dentro dela. O regime autoritário não chega com tanques de guerra e exército na rua, batendo em manifestantes, da noite pro dia. Ele se instala aos poucos, aprovando Projetos de Lei sem cabimento, ovacionando discursos de ódio contra minorias, censurando a imprensa, bradando contra os Direitos Humanos, incitando uma revolta da população contra a democracia que supostamente não funciona, espalhando teorias da conspiração para causar terror, fazendo a população desacreditar das instituições, invadindo universidades à caça de professores que, diz-se, doutrinam os alunos.

Posso não ter vivido durante a Ditadura Militar (1964-1985) ou a do Getúlio Vargas (1937-1945 – Estado Novo), mas existe uma certa disciplina chamada História, existem documentários, reportagens e livros. Algumas histórias foram contadas depois que as ditaduras acabaram. Outras conseguiram sobreviver. E nós? Será que teremos que esconder nossos livros considerados subversivos? Será que eles serão queimados numa batida da polícia na sua (na nossa) casa? Antes disso acontecer, melhor ler essa lista que preparei abaixo:

1 – O Conto da Aia – Margaret Atwood

Um golpe religioso de extrema direita nos EUA implanta a República de Gilead. Nela, a Constituição é suspensa, o Congresso é fechado por “terroristas”, jornais e universidades são fechadas, gays são caçados. Mulheres não podem mais estudar, ou sequer ler. A taxa de natalidade cai por conta da infertilidade, e as mulheres férteis consideradas promíscuas (solteiras, lésbicas) são submetidas a um treinamento para se tornarem aias, incubadoras ambulantes que vão gerar filhos para as famílias abastadas que não podem tê-los. As mulheres inférteis são divididas em outras castas, o que normalmente significa virarem empregadas domésticas. Em outros casos, são enviadas a campos de trabalho forçado.

Cada aia passa um tempo em uma família, fazendo “rituais” mensais com o marido e a esposa durante o período fértil. Se você não entendeu, isso significa estupro. O controle é rígido, todos em volta podem ser informantes do governo. Não há informação, não há organização de resistência, já que ela é reprimida com violência. O livro é uma distopia, publicado em 1985, e por uma bizarrice da humanidade, nunca esteve tão próximo.

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2 – Como as democracias morrem –  Steven Levitsky e‎ Daniel Ziblatt

Professores de Harvard, Levitsky e Ziblatt discutem nesse livro a ascensão de regimes autoritários em vários países, trazendo a eleição de Donald Trump nos EUA, análises sobre o nazismo e o fascismo no século XX, os governos militares da América Latina durante  a Guerra Fria e o crescimento das extremas direitas em todo o mundo nos últimos anos.

A tese dos autores é de que o golpe de estado clássico com armas e fechamento de Congressos já não existe. O que ocorre hoje são ataques crescentes às instituições. Recém-lançado pela Zahar, já vendeu 15 mil exemplares desde agosto deste ano. Segundo um dos autores, essa popularidade só foi semelhante na Alemanha, onde as pessoas não consideram a democracia garantida, por razões históricas.

3- 1984 – George Orwell

Privacidade não existe nesta distopia ambientada na Guerra Fria. Televisores instalados por toda a parte vigiam o que a população faz. “O Grande Irmão está de olho em você”. Três grandes estados totalitários dividem o mundo, e a ação é centrada em Oceânia, que reúne os antigos territórios de reúne Inglaterra, Américas, Austrália, Nova Zelândia e parte da África.

Winston Smith é o protagonista, que trabalha no Ministério da Verdade no ofício de falsificar registros históricos, moldando o passado conforme agrada ao Estado. Tudo é proibido, até mesmo relações amorosas. Sentimentos transgressores começam a fazer alguns pensarem que uma revolução é possível. Será?

“Viveremos uma era em que a liberdade de pensamento será de início um pecado mortal e mais tarde uma abstração sem sentido.” – George Orwell

4 – Coleção Ditadura – Elio Gaspari

Uma coleção de cinco volumes que reúnem mais de 30 anos de pesquisa do jornalista Elio Gaspari. Os títulos são: A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada, A ditadura encurralada e A ditadura acabada. Cada um corresponde a uma fase da ditadura militar: de 1964 até o AI-5, em 1964; os anos mais violentos, de 1969 a 1973; os antecedentes dos  generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva até 1974; a reabertura por Geisel, a morte de Vladimir Herzog, em 1975; e, por fim, de 1978 a 1985, com a eleição de Tancredo Neves.

Os dois primeiros volumes foram publicados pela Editora Intrínseca em 2002 e receberam o prêmio de Ensaio, Crítica e História Literária de 2003, concedido pela Academia Brasileira de Letras. O último volume foi lançado em 2016. O autor ainda traz um epílogo que acompanha 500 sobreviventes da ditadura, como militares, militantes, professores e empresários.

5 – Olga – Fernando Morais (e outras biografias)

Olga Benario é uma figura icônica da história do Brasil e também da Alemanha. Nascida em Munique, em 1908, iniciou sua militância comunista por volta dos 15 anos. Em 1934, na Rússia, ela conhece Luís Carlos Prestes, que já era famoso entre os comunistas russos pela Coluna Prestes, que circulou pelo Brasil entre 1925 e 1927. Estavam juntos dois grandes estrategistas. Após uma tentativa de golpe, que ficou conhecida como Intentona Comunista, Olga e Prestes (e outros parceiros deles) são presos em 1935, e Olga – judia – é deportada grávida de 7 meses para a Alemanha nazista em 1936 por Getúlio Vargas. Fernando Morais narra os momentos de tensão políticos e jurídicos na tentativa de impedir a deportação de Olga, e, depois do nascimento de Anita Prestes, narra os últimos meses da criança com a mãe na prisão, a campanha internacional que a família de Prestes moveu para que o bebê lhes fosse entregue…

Por si só, a biografia de Olga já poderia ser material “subversivo” suficiente, e a escrita por Fernando Morais não é a única. A filha Anita Prestes também escreveu um livro sobre sua mãe: Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo. A biografia do próprio Prestes também poderia ser confiscada. Há três: uma escrita por Anita (Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro, de 2015), uma por Daniel Aarão Reis (Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos, de 2014), e uma de Jorge Amado (O cavaleiro da esperança, de 1942).

6 – Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

O livro foi publicado em 1953, e só prova que nossa sociedade não entendeu nada dos que se passou nos últimos 100 anos, pois continua muito atual. Tudo é controlado e as pessoas só se informam por canais oficiais de TV ou em praças. O protagonista Guy Montag tem o trabalho de QUEIMAR LIVROS, algo que lhe causa grande prazer – 451 Fahrenheit é a temperatura na qual os livros se desfazem.  É proibido ler, é proibido pensar: um povo que pensa pode se rebelar, afinal de contas. A lei é incendiar os livros e dizer que tudo que está escrito neles é mentira e que seus autores nunca existiram.

7- Origens do totalitarismo –  Hannah Arendt

De um lado, a evolução do antissemitismo em racismo, de outro, o marxismo se transformando em despotismo. Hannah Arendt une o nazismo e o stalinismo em um único pilar, sendo este livro o mais importante estudo comparativo entre os principais regimes totalitários do século XX, e que têm reflexos até hoje. Ela traz um quadro completo da organização totalitária,  a sua implantação, a propaganda, o modo como manipula as massas e se apropria do Estado com vista à dominação total.

No final Arendt deixa uma “profecia” desconcertante: “As soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários sob a forma de forte tentação que surgirá sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social ou econômica de um modo digno do homem.”

8 – 1968: O ano que não terminou – Zuenir Ventura

Ano do decreto do AI-5,  em 1968 não havia mais o fingimento de que o Brasil ainda era uma democracia. O general Costa e Silva concentrava o poder em suas mãos e o usava para cassar, exilar, prender, torturar e matar. Zuenir reconta fatos como o assassinato do estudante Edson Luis, a Passeata dos Cem Mil, o decreto do AI-5, a contracultura hippie, a MPB de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, Glauber, o congresso da UNE, a conspiração dos militares de extrema-direita para explodir o Gasômetro e matar milhares de cariocas, o discurso do deputado Márcio Moreira Alves que revoltou as Forças Armadas e a pressão dos radicais pelo endurecimento do regime.

Publicado em 1989, o livro ganhou uma edição comemorativa em 2018. Antes, em 2008, havia sido lançada uma continuação dele, “1968: O que fizemos de nós“, que investiga o legado deixado pela geração 1968 e as mudanças na sociedade desde o lançamento original de O ano que não terminou. E ao que parece, outros fatos nesse país vão “comemorar” e relembrar 1968 também. Oremos.

9 – Brasil: nunca mais – Dom Paulo Evaristo Arns, Henry Sobel e Jaime Wright

Resultado de amplas pesquisas sobre a tortura de civis, o projeto Brasil: Nunca Mais foi construído pelo Conselho Mundial de Igrejas e da Arquidiocese de São Paulo,  que trabalharam em sigilo durante cinco anos sobre 850 mil páginas de processos do Superior Tribunal Militar. O livro homônimo resultou dessas pesquisas e foi publicado em 1985 pela Editora Vozes, ficando 91 semanas seguidas na lista dos dez mais vendidos. O tema dos Direitos Humanos entrava na casa da população brasileira pela primeira vez.

O relatório também seu origem ao BNM Digital, mantido e atualizado com garantia do  Ministério Público Federal. A iniciativa é uma parceria com o Instituto de Políticas Relacionais, o Conselho Mundial de Igrejas, a Ordem dos Advogados do Brasil/Seccional Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional e o Center for Research Libraries/Latin American Microform Project, entre outros que se comprometem com a defesa dos Direitos Humanos.

Visitem o site do projeto. Tem material pra caramba! 

 

Eu relutei muito em escrever esse post, principalmente porque tinha esperança de que ele não fosse necessário. Mas a eleição de 2018 mal acabou e já estão promovendo uma caça a uma suposta doutrinação de esquerda, a mesma que dizem existir há pelo menos 80 anos – mesmo que as duas ditaduras que nosso país passou tenham sido militares.  Sim, porque todo material que alguns não concordam é considerado doutrinação. Leiam, absorvam! Pensem por si mesmos e cheguem sozinhos a suas conclusões. Critiquem, e, acima de tudo, questionem!

A lista de livros que se enquadram aqui é infinita. E isso só falando de política. Poderíamos incluir temas como Feminismo, estudos de Gênero, racismo, movimentos sociais. Que outros que eu deixei de fora poderiam entrar também? Quem sabe fazemos uma segunda e até uma terceira lista? Juntos seguimos.

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