Realidade, história da revista que virou lenda

16/08/2015 0 Por admin

O livro traz a história da revista Realidade em seus dois primeiros anos de circulação: da criação, em 1966, à demissão de seu primeiro editor-chefe, Paulo Patarra, em 1968. Esse fato levou à “autodemissão coletiva” dos integrantes da primeira redação da revista. Na capa do número 33, o último da primeira turma e que encerrou a considerada melhor fase da publicação, aparecia Luís Carlos Prestes, mesmo já tendo sido decretado o AI-5, o que era uma verdadeira afronta ao governo militar.

realidade história da revista que virou lendaA revista circulou ainda até 1976, em clara decadência após os dois primeiros anos. O autor Mylton Severiano (conhecido como Myltainho), fez parte dessa turma de “malucos de esquerda” e “loucos de 64”, na denominação que ele mesmo faz em diversas partes do livro.

Em plena ditadura militar, Realidade tratava de temas tabus e de política, bancados pela Abril, que até 1968 não fazia tanta pressão sobre os editores, já que as vendas eram exorbitantes (beirando os 500 mil exemplares) e a censura ainda era branda, de certa forma (ou era burlada com êxito). Em 1968, a existência de Realidade levou à criação da revista de direita, a Veja, pelo mesmo Roberto Civita. O cerco começou a apertar com capas com Fidel Castro e Che Guevara.

Myltainho colheu diversos depoimentos de quem fez e viveu a revista, e é unanimidade entre os entrevistados que a maneira com que Realidade abordava os fatos era diferente de qualquer outro modo que poderia existir. As reportagens tinham profundidade e ao mesmo tempo eram humanistas.

O livro traz bastidores da redação, narração de brigas, intrigas e fatos engraçados. O mais curioso e incrível deles está no seguinte trecho:

“Dizem analistas que a gente imitava o new journalism. Trabalhei do lado do Serjão e do Paulinho e nunca ouvi falar. A gente inventou uma fórmula nossa, não?”

Para jornalistas e estudantes da área, é interessante saber que a fórmula do que chamamos de Novo Jornalismo era praticada sem talvez sofrer influência direta da mídia estrangeira. Uma hipótese é que a época pedia isso, como se fosse um inconsciente coletivo. Até porque, demoraria muito mais tempo para que o método chegasse aqui e fosse estudado e praticado, como acontece com muitas coisas hoje relacionadas ao jornalismo, e das quais tomamos conhecimento quase que instantaneamente.

O senão do livro é que todo esse período é narrado em fluxo de consciência, tornando a leitura confusa, pois ele vai e volta no mesmo tema ou na mesma edição da revista várias vezes. Acredito que em ordem cronológica ficaria muito melhor, até para o leitor se situar e acompanhar o período.

20150816_121931

Diversas vezes também o autor fala brevemente sobre um assunto e explica “veremos adiante”, ou “como será visto no capítulo x”, quando poderia já eliminar o tópico rapidamente. Ele também se demora na transcrição de conteúdos da revista, como índices, que acabam sendo um pouco inúteis. Os primeiros números da revista tomam bastante espaço dentro do livro. Ao relatar o final, a impressão é de que ele “correu” e falou pouco desse fim, ou se demorou demais no restante.

Como consegui:  fiz uma entrevista com o autor, e ele me deu um exemplar de presente. Myltainho foi uma das principais fontes para o meu TCC em Jornalismo, uma reportagem sobre ghost writers (que não tinha nada a ver com o assunto do livro que ele me deu). O autor faleceu um mês depois da nossa conversa, que além de me revelar muito sobre a profissão de ghost writer, foi uma pequena aula de jornalismo.

Nota: 7

Ficha
Realidade, história da revista que virou lenda
Autor: Mylton Severiano
Ano:2013
Editora: Insular

Gostou? Comapartilhe 🙂
Share on Facebook
Facebook
0Tweet about this on Twitter
Twitter
Share on LinkedIn
Linkedin
Pin on Pinterest
Pinterest
0Email this to someone
email